Eu só queria comer uma paçoquinha.
Paçoquinha.
Esse doce tão gostoso de falar, quanto de sentir o sabor do açúcar e do amendoim.
Queria sentir meus dentes esfarelarem o pequeno cilindro da Santa Helena.
E devia ter uns cinco anos.
E só queira uma paçoca.
Tudo o que eu queria naquela hora era uma paçoca.
Mas a minha mãe, que tinha me levado na quitanda- ou eu tava com ela porque não tinha com quem me deixar- passou na frente da casa do Mauricim.
Ele já era meu melhor amigo.
"Oferece uma pro Mauro"
Eu devia ter só cinco anos.
Mas já sabia o que era um artigo indefinido.
Ofereci, ou tentei - melhor - oferecia uma paçoca meio esfarelada. A perfeitona ia ficar pra mim.
Claro, por que não?
MINHA mãe tinha comprado.
Não a era mãe dele.
Era a minha paçoca.
Não era a dele.
Acho que tinham só duas mesmo, não lembro de outras.
Só lembro dos farelos.
Dos farelos marrons-claro.
Olhei cabisbaixo pra calçada.
Era como se a marca da areia refletisse os farelos que tinham na bandeja de plástico.
Tinha areia na calçada.
Areia de construção.
Eu nem sabia que era pobre.
Que morava num bairro pobre.
Eu não sabia contar.
Os números,
não sabia.
Sabia contar vantagem.
Achava que meu pai - assim como achava que todas crianças achavam de seus pais - era o cara mais rico do mundo.
Eu achava.
Eu achava que meu pai era um dos caras mais ricos do mundo.
Não sei porque.
Sabia nem contar, ia saber de que jeito que eu morava num lugar pobre?
/que tinha areia de reforma na calçada, marca de cimento no asfalto.
Essas coisas que sinalizavam que ali morava um pobre - e sua família.
Que morava lá na casa, enquanto reformava tudo.
Tudo.
Não só um cômodo.
Tudo.
Mas nada ficava pronto.
Nunca ficava.
Minha paçoca nunca ia ficar pronta.
Eu poderia comer, depois daquela vez, um milhão de paçocas todos os dias da minha vida.
Ainda assim, nenhuma seria igual àquela que eu queria.
Que minha mãe me obrigou a "oferecer" pro Mauricim.
Nossa, como eu fiquei puto.
Fiquei enfurecido, comido pela raiva que eu tinha da minha mãe.
Achei muito inválida a liçãozinha sobre generosidade.
"se você for oferecer alguma coisa, oferece o melhor que tem"
nem era isso, exatamente.
Tinha cinco anos, também.
Impossível lembrar o que era exatamente.
Mas, exata e precisamente, lembro muito bem do que não foi ensinado, mas que eu aprendi: se vc quer oferecer alguma coisa a alguem, pode se preparar pra se fuder; pra se aniquilar; pra se excluir de um tipo de egoismo-não-escroto.
Se vc vai oferecer paçoca para alguém, pode se preparar, porque você vai ter que abrir mão da SUA paçoca.
Eu não tava preparado.
Eu tinha cinco anos, porra.
Eu tinha raiva.
A alegria que o Mauricim estampou na cara com aquele puta sorriso me deixou furioso.
Era raiva.
Era muita raiva.
E era quente e úmida.
Diretamente proporcional à alegria que ele sentia e sumia casa adentro com a minha Ex-paçoca.
Naquele dia eu odiei muito minha mãe.
Eu nem queria mais comer minha (então) paçoca.
Não que fosse mimado - não que não fosse - mas aquela que o Mauricim levou, puta que me pariu, ERA a minha paçoca.
E ela foi embora.
E se transformou na felicidade do meu amigo.
Foda-se.
Eu tava puto.
Tava cagando pra ele.
Ele nem existia antes dela ser a minha paçoca.
Eu já flertava com ela desde a quitanda.
Eu tava louco pra abocanhar aquele tablete de alegria e polvilhar minha língua com doces farelos marrons-claro de amendoim torrado e cozido ao leite condensado.
Mas, tomar no cu, porque minha mãe foi inventar de bancar a Madre Teresa?
Por que a inflação tinha estar na casa do caralho, hein, presidente Sarney?
Puta, que raiva!
Eu não queria mais paçoca.
Eu não queria mais comer paçoquinha.
Eu queria ter ficado tão feliz quanto o Mauricim ficou, quando ele pegou a paçoca igual um macaco pega uma banana e some pro fundo da jaula.
Ele pegou das grades do portão.
E entrou feliz pra caralho e rapidinho em casa.
Nem deve ter durado muito tempo.
Mas foi suficiente pra estraçalhar com o meu sonho de comer aquela paçoquinha.
Eu me sentia abandonado.
E pior, tudo que eu tinha era a companhia da minha raiva e uma opção de paçoca esfarelada.
Não era perfeita igual à outra. Igual à minha.
E, a raiva, eu sabia que iria passar logo.
Passou mesmo.
Mas ficou a inveja.
Não da paçoquinha, mas da felicidade plena, perfeita.
Eu só queria uma paçoquinha.
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