quarta-feira, julho 05, 2006

Dia de Perdedor

Sou brasileiro, logo, o dia primeiro de julho marcou bem fundo essa caixinha que eu chamo de memória.
Começou logo pela manhã daquele sábado, quando acordei atrasado para entrevista com o professor de filosofia, seria a última "aula" do semestre. A festa de despedida do bixo simpatia, o cara que abandonou o curso de jornal, me fez acordar um pouco mais tarde e quase perder o fechamento da nota do semestre.
Na volta para casa, em cima da minha moto e tomando um sereno naquele tempo frio, perdi a voz e vinte por cento da saúde.
Perdi mais um pouco de tempo tomando café na padaria lá pela uma e meia.
Perdi alguns reais quando abasteci com a gasolina do posto mais caro, porque não tive o capricho de comparar os preços dos concorrentes.
Até estaria feliz, não fosse o mau-tempo daquele dia que me fez perder o churrascão com piscina, preferi trocar pela viagem de volta à Ribeirão.
É claro que antes de ir para a minha cidade natal, perdi alguma hora e meia arrumando minha meia dúzia de itens a serem levados na mochila, inclusive o lenço de cetim com estampas da bandeira nacional, que perdi na estrada, quando ele desatou os nós apertados que dera.
Chegando em casa, após ter perdido todo o primeiro tempo do jogo da França, notei um certo clima estranho dentro da meu próprio lar, no calor que eu amo desta cidade quente.
Após perder as quartas de final, deitado na cama, ao lado do telefone, minha breve tentativa de descanso termina após um convite para festa. Melhor amigo chamou, não tem como não ir. Ainda ali, no templo da preguiça convidei minha, até então, namorada para a mesma festa. Para a minha surpresa (não tão grande, confesso), aquela senhorita, que não sabia se eu estava na cidade, esperava o telefonema de uma amiga dela, que acompanharia algumas outras para essa mesma festa. Desligou o telefone sem demonstrar nenhum entusiasmo por saber que nos encontraríamos ainda naquela noite.
Devo dizer que perdi a hora para chegar ao local da festa? Ah, não, me desculpem. Pensei que isso já seria pré-susposto. Deste descuido, aparentemente irrelevante, acarretou-me a perda do horário de venda dos convites!
Fato engraçado: uma quermesse limitou o número de pessoas (pagantes!) durante três horas. Faltando uma hora para o término oficial da "festa", liberaram a entrada insatisfeitos, porém pacientes que perseveravam atrás do portão de ferro e da muralha do salão paroquial.
Esperei durante quase duas horas pela entrada, para não conseguir encontrar meu amigo, com quem eu queria tanto falar a tanto tempo e, principalmente, para perder totalmente o rumo de todo o discurso que eu havia preparado durante uma semana inteira ao ouvir da boca de uma menina três palavras: "não quero mais".
Esse exato momento foi o qual eu menos perdi. Isso é muito sério. Nele, eu apenas perdi oficialmente um namoro não tão oficializado, ainda enquanto todo o sentimento pela menina que me feria friamente permanecia vivo e intenso dentro de mim, intacto e guardado num lugar onde não posso perder mais nada.